Skip to content

Casas na Europa estão afundando à medida que o solo cede; entenda o fenômeno

Subsidência do terreno já afeta dezenas de milhões de pessoas no continente e pode provocar rachaduras, danos em fundações e aumento do risco de inundações

Da Redação

Nacional e Internacional

COMPARTILHE |

1200

Casas que apresentam rachaduras nas paredes, pisos que começam a ficar desnivelados e portas e janelas que deixam de fechar corretamente podem estar revelando um problema que não começa na estrutura do imóvel, mas no terreno sobre o qual ele foi construído. Em diferentes regiões da Europa, o solo está afundando gradualmente em um fenômeno conhecido como subsidência.

Uma pesquisa publicada recentemente na revista científica Nature Sustainability aponta que a subsidência já afeta dezenas de milhões de pessoas no continente, aumentando o risco de danos a edifícios e infraestrutura e agravando a exposição a inundações, especialmente em áreas costeiras.

O fenômeno não ocorre da mesma forma em todos os países. Em algumas regiões, está relacionado à retirada de água subterrânea; em outras, à mineração, extração de hidrocarbonetos, características naturais do solo ou compactação de terrenos. As mudanças climáticas também podem aumentar a pressão sobre determinadas áreas, principalmente com períodos mais longos de seca e ondas de calor.

Por que o solo está afundando?

A subsidência acontece quando a superfície do terreno sofre um movimento vertical para baixo. Uma das causas mais importantes é a alteração das condições subterrâneas.

A retirada excessiva de água dos aquíferos, por exemplo, pode reduzir a pressão que sustenta determinadas camadas do subsolo. Em terrenos formados por materiais compressíveis, isso pode provocar o adensamento do solo e, consequentemente, o rebaixamento da superfície.

A mineração e a extração de petróleo e gás também podem modificar o equilíbrio subterrâneo. Além disso, solos formados por argila, turfa e outros materiais mais deformáveis podem sofrer alterações significativas quando há mudanças no nível de água ou períodos prolongados de estiagem.

Casas começam a sentir os efeitos

Quando o terreno se movimenta de maneira desigual, diferentes partes de uma construção podem sofrer deslocamentos distintos. É nesse momento que os sinais começam a aparecer.

Entre os problemas mais comuns estão rachaduras em paredes e fachadas, pisos desnivelados e danos nas fundações, além de alterações no funcionamento de portas e janelas.

Na Holanda, por exemplo, pesquisadores da TNO e da Deltares acompanham imóveis afetados por movimentos do subsolo. Em algumas regiões, a combinação entre períodos de seca, redução do nível da água subterrânea e características do solo aumenta o risco de danos às fundações.

O problema é especialmente relevante no país porque muitas construções antigas foram erguidas sobre terrenos de argila e turfa. Algumas utilizam fundações rasas ou estacas de madeira, que podem ser vulneráveis às alterações no nível da água subterrânea.

Holanda enfrenta um dos maiores desafios

A Holanda aparece entre os países europeus onde a questão das fundações ganhou maior dimensão. Um levantamento citado pelo DutchNews aponta que mais de 400 mil edifícios no país apresentam problemas nas fundações ou podem desenvolvê-los nos próximos dez anos.

Segundo a mesma fonte, cerca de 120 mil imóveis estariam em situação que exige reparos urgentes. O custo potencial para solucionar os problemas poderia chegar a 54 bilhões de euros.

Além dos danos físicos, a subsidência também pode afetar o mercado imobiliário. Pesquisas sobre o mercado holandês encontraram descontos nos preços de imóveis associados ao risco de afundamento e de danos às fundações.

Mudanças climáticas podem agravar o problema

O aquecimento do planeta não é apontado como causa única da subsidência, mas pode intensificar determinados mecanismos que provocam o deslocamento do solo.

Períodos prolongados de seca podem reduzir o nível das águas subterrâneas. Em solos argilosos, a perda de umidade provoca contração e pode gerar movimentos capazes de afetar construções.

No Reino Unido, por exemplo, o aumento das temperaturas e a ocorrência de verões mais quentes e secos vêm sendo associados ao crescimento dos casos de subsidência. O British Geological Survey estima que até 11% das residências britânicas — mais de 4,2 milhões de imóveis — possam estar expostas ao risco de subsidência até 2070.

O problema vai além das casas

Os impactos não se limitam aos imóveis. Quando o terreno afunda, estradas, ferrovias, redes de água, sistemas de drenagem e outras estruturas também podem ser afetados.

Em regiões costeiras, a situação é ainda mais preocupante. Quando o nível do terreno diminui enquanto o nível do mar sobe, aumenta a chamada elevação relativa do nível do mar, ampliando a exposição de cidades e comunidades a inundações.

Um estudo publicado na Nature Communications estima que, sob um cenário intermediário de mudanças climáticas até 2050, aproximadamente 94 mil quilômetros quadrados de áreas costeiras europeias, onde vivem cerca de 25 milhões de pessoas e existem 8 milhões de edifícios, poderão enfrentar risco de inundação.

Satélites ajudam a identificar o movimento

Uma das principais ferramentas utilizadas pelos pesquisadores para acompanhar o fenômeno são os satélites. Por meio de técnicas de radar, é possível detectar pequenas alterações na altitude do terreno ao longo do tempo.

O desafio, porém, é descobrir por que determinado local está afundando. Os pesquisadores ressaltam que as imagens de satélite precisam ser combinadas com informações sobre geologia, águas subterrâneas, características do solo e atividades realizadas no subsolo.

A integração dessas informações permite produzir mapas de risco mais precisos e orientar decisões sobre ocupação do solo, infraestrutura, uso da água e adaptação às mudanças climáticas.

Um problema que exige monitoramento

Apesar dos impactos, especialistas destacam que a subsidência não significa que as casas estejam inevitavelmente condenadas. A identificação antecipada do movimento do solo pode permitir medidas de prevenção, reforço das fundações e adaptação das construções.

A principal preocupação é justamente evitar que o problema seja percebido apenas quando os danos já estiverem avançados.

Na Europa, pesquisadores defendem maior integração entre dados de satélite, monitoramento em campo e informações sobre o subsolo para identificar as áreas mais vulneráveis e orientar políticas públicas.

O fenômeno mostra que, em algumas regiões, o risco para uma construção pode estar literalmente debaixo dos pés dos moradores — e que compreender o comportamento do solo se tornou uma parte cada vez mais importante do planejamento das cidades.

Últimas Notícias

Mais Acessadas